No segundo dia de Marés Vivas, um cartaz sólido provocou enchente junto à praia do Cabedelo. David Fonseca, Placebo e Peaches foram responsáveis por uma noite em crescendo, depois de 16 mil pessoas passarem pelo primeiro dia do festival.
reportagem FestivaisPT
A tarde arrancou atrasada no palco TMN Moche, com a "The Love Tour" de
André Indiana e
Mónica Ferraz a apresentar-se bem depois da hora que lhe era atribuída. Com uma tenda a meio gás, enquanto na outra ponta do recinto muitos guardavam já lugar junto das grades do palco TMN - e outros optavam pelas diversas actividades promovidas pelas marcas presentes -, houve rock com influências de funk e blues.
Depois deles, e com hora e meia de atraso,
Os Azeitonas dividiram público - e parte do horário - com os britânicos que abriam o palco TMN, ao fundo. Ainda assim, larga foi a moldura humana a acolher os "fiéis depositários de um Nacional-Cançonetismo".
A SILENT FILM
Depois da tripla passagem pelo nosso país em Maio, os britânicos A Silent Film foram os primeiros a subir ao Palco TMN nesta segunda noite de Marés Vivas. Na bagagem veio ainda o disco de estreia, “The City That Sleeps”, e dois temas novos. Com um rock acompanhado por piano e comparações a Keane ou Coldplay, os A Silent Film mostraram-se já donos do reconhecimento do público, com uma actuação à nem sempre fácil hora de jantar.
Arrancando com "Feather White", o projecto que deve o nome à paixão pelo cinema mudo foi aproximando o público do palco. Fascinado pelo cenário natural e o pôr-do-sol à sua frente, Robert Stevenson afirma, em "Julie June", que são uns sortudos por tocar àquela hora - mais à frente iria repetir o elogio, afirmando que na sua Inglaterra não há locais assim - arrebatado pela visão do palco, com tanta gente à sua frente.
Depois de mostrar novo material ("The Stage Is Your Life" e "Your Potential"), Robert senta-se ao piano para aproveitar os últimos raios de sol sobre o rio e apresenta "Aurora", sozinho em palco. Para a recta final ficariam os temas mais orelhudos - e com melhor reacção junto do público - dos britânicos, com "You Will Leave a Mark" a colocar o ponto final a uma hora de concerto.
Alinhamento:
Feather White
Sleeping Pills
Julie June
The Stage Is Your Life
Your Potential
Aurora
Driven by Their Beating Hearts
Thirteen Times the Strength
Firefly in My Window
You Will Leave a Mark
DAVID FONSECA
Conhecido pelo esforço com que constrói actuações ao vivo para além do mero concerto, David Fonseca trouxe ao Marés Vivas todo o aparato com que presenteou os Coliseus há poucos meses. Já com os painéis de LEDs a colorir o palco, ouve-se "I Want to Break Free" (Queen). O público, distraído e a trautear o tema como qualquer outro durante as pausas entre concertos, nem deu por David Fonseca dentro da cabine telefónica. E assim arranca o concerto: "Walk Away When You're Winning".
Com o final dos Silence 4, o músico construiu uma sólida carreira a solo nestes últimos sete anos – atingindo o sucesso nas tabelas de venda, que tantas vezes fogem ao talento nacional. Com quatro discos entre o repertório, o mais recente “Between Waves” dividiria atenções com um conjunto alargado de temas elevados ao patamar de
hit.
De volta à cabine, David apresenta a primeira
cover vinda directamente da década que domina o seu imaginário: "Everybody's Got to Learn Sometime" (The Korgis) faz a ponte com "A Cry 4 Love", na ponta da língua de um público já em sintonia com o músico de Leiria. "Morning Tide" em ritmos tropicais e "Kiss Me, Oh Kiss Me" convencem os ainda não rendidos.
Campeão de
airplay, "Someone That Cannot Love" - o
single que estreou em 150 rádios, em simultâneo, há sete anos - e "Our Hearts Will Beat as One" demonstram a facilidade com que passa de baladas a territórios que apelam mais à dança. Recordando 1998, afirma: "the roof is on fire". E o público não demora a acompanhá-lo no clássico dos Bloodhound Gang.
A nova "Stop 4 a Minute" une-se, então, a "Superstars", antes de David Fonseca dedicar "Girls Just Wanna Have Fun" a todas as mulheres presentes na plateia, que o recordava o quão bom é tocar em festivais: um mar de gente à sua frente. Alegando que são elas quem melhor sabe se divertir, aproveita a
cover de Cindy Lauper para lançar sobre o público confetis. Que não restassem dúvidas: o concerto desta noite era uma festa.
"The 80's" surge antes do instrumental de "Sabotage", clássico dos Beastie Boys que dá tempo a David trocar de roupa. Já em modo 'boxeur' - nem as luvas faltaram - afirma que a partir dessa altura seria o nosso DJ. De holofote na mão, parte para uma "This Raging Light" de sabor
techno, com "Silent Void" a fechar com fogo de artifício um concerto imaculado.
Alinhamento:
Walk Away When You're Winning
Owner of Her Heart
Everybody's Got to Learn Sometime (The Korgis cover)
A Cry 4 Love
Morning Tide (I Just Can't Remember)
Kiss Me, Oh Kiss Me
Someone That Cannot Love
Our Hearts Will Beat as One
Fire Water Burn (Bloodhound Gang cover)
Stop 4 a Minute
Superstars
Girls Just Wanna Have Fun (Cindy Lauper cover)
The 80's
Sabotage (Beastie Boys cover)
This Raging Light
Silent Void
PLACEBO
Raras vezes os Placebo deixaram de marcar presença nos festivais de Verão portugueses e este ano não foi excepção. O pretexto continua a ser “Battle for the Sun”, disco que trouxeram à edição do ano passado do Alive, ainda fresquinho.
A banda de Brian Molko e Stefen Olsdal, agora com novo baterista na formação (Steve Forrest), desde cedo conseguiu criar seguidores fiéis em Portugal, mas foi com os dois últimos discos que conquistaram um público mais vasto. Com destaque no cartaz, os Placebo seriam os principais responsáveis pela enchente que o recinto do Marés Vivas hoje registou.
Logo no arranque, recordam o primeiro
hit: "Nancy Boy". Numa actuação a destacar o mais recente disco, o público saudoso do passado dos Placebo foi brindado com algumas recordações entre um alinhamento, ainda assim, a olhar pouco para o passado. "Ashtray Heart" (o nome inicial do projecto, em 1994) e "Battle for the Sun" revelam que entre o público há duas facções: os novos seguidores, pós "Meds", e os antigos.
Se "Sleeping with Ghosts" e o seu "soulmates never die" (que deu título ao DVD ao vivo) na letra facilmente conquistam ambos, "Bionic" é recebida com menos entusiasmo pelos seguidores mais recentes - houve até que questionasse se era novo, não reconhecendo o tema do disco de estreia. São já 14 os anos que entretanto se passaram, tempo suficiente para que Molko apresentasse, mais à frente, "Teenage Angst" como um tema que tinha escrito há tanto tempo que já nem o sabia tocar - sentido de humor apenas, já que foi apresentado com nova roupagem - tratamento aplicado de uma forma transversal aos temas menos recentes.
"Every Me, Every You" e "Special Needs" piscam de novo o olho ao passado, antes dos Placebo voltarem a destacar o novo disco. "Breathe Underwater", "The Never-Ending Why" e "Bright Lights" surgem como um dos blocos recebidos com maior entusiasmo, antes de "Meds" recuperar o álbum homónimo.
Recordando Nirvana e "All Apologies", preparam a ameaça de final de concerto: "Song to Say Goodbye" e "The Bitter End. Com despedida adiada, os Placebo voltam ao palco para um
encore muito aplaudido e dedicam metade do tempo ao disco de 2006, "Meds". De "Black Market Music", considerado por muitos o disco-basilar da carreira dos britânicos, fica apenas o final dos 90 minutos: "Taste in Men", voltando a unir os dois públicos de um concerto a ficar na memória de muitos.
Alinhamento:
Intro
Nancy Boy
Ashtray Heart
Battle for the Sun
Sleeping with Ghosts
Bionic
Every You, Every Me
Special Needs
Breathe Underwater
The Never-Ending Why
Bright Lights
Meds
Teenage Angst
All Apologies (Nirvana cover)
Song to Say Goodbye
The Bitter End
Encore:
Trigger Happy
Post Blue
Infra-Red
Taste in Men
PEACHES
Ainda que o espaço vazio tivesse aumentado consideravelmente, o recinto continuou composto para receber Peaches. Pouco era o público que parecia conhecer o trabalho da canadiana, mas o factor curiosidade manteve a moldura humana seguramente próxima da dezena de milhar.
Ao vermos Merril Nisker em palco dificilmente conseguimos acreditar que a canadiana, agora residente em Berlim, já foi professora do Ensino Primário. Com quatro discos e uma reputação de concertos incendiários, Peaches é um dos nomes de referência do electroclash no virar de milénio.
Num ano, o mais recente “I Feel Cream” trouxe-a três vezes ao nosso país, mas o álbum acusa ainda pouco desgaste. Com um arranque tão intenso que levou muitos a afastarem-se dos graves debitados pelo sistema de som, tal era a vibração causada nos corpos, a curiosidade ganhou raízes e Peaches arrancou uma actuação que muitos considerariam a surpresa da noite.
Apresenta "Mud" totalmente tapada, com um fato retalhado e ares de esfregona, mas em "Talk to Me" já se havia livrado de boa parte da roupa. Com trocas constantes de vestuário, a canadiana usa também essa arma como provocação entre o público. Com a sexualidade entre a temática dos temas e vincada no comportamento em palco, é neste universo provocador que Peaches se gosta de mover - e o público segue-a.
Em "Billionaire" trava um diálogo em versão rap com uma projecção, mas em "Take You On" já havia deixado o palco para optar pelo
crowdsurfing sobre o público. E seria sobre ele que iria passear-se em "Show Stopper": Jesus caminhou sobre a água, Peaches caminha sobre o público. Por esta altura, a surpresa havia eliminado a curiosidade e poucos arredavam pé do palco TMN.
Entre dois temas novos ("Serpentine" e "More"), recupera "Shake Yer Dix", "Tombstone" e "Boys Wanna Be Her". A festa estava lançada e nem o champanhe falhou: "You Love It" é servida com direito a banho colectivo. Mesmo sem duche, Peaches regressa ao palco com uma toalha enrolada no cabelo - a do corpo seria utilizada como tela de projecção durante "Lose You",
à semelhança do videoclipe. Toda a gente conhece a "slutty, sexy and disgusting Peaches", mas o tema, nas palavras da própria, serve para nos mostrar o seu lado mais sensível.
Numa sempre em crescendo "I Feel Cream", desvia atenções com uma luz intermitente para a zona púbica - não fosse o público esquecer-se da provocação constante. E houve ainda tempo para "Mommy Complex" e "Kick It", tema gravado com Iggy Pop onde o punk ganha músculo electrónico. Para o fim, ficariam dois temas do disco de estreia, editado há dez anos: "Fuck the Pain Away", com o público ainda a digerir a actuação com o acender de luzes, e "Set it Off" já em
encore.
Conhecida a (saudável) rivalidade Lisboa/Porto, Peaches aproveita o momento para lançar o desafio: se aceitassem o seu pedido, iria eleger o público da Invicta "muito mais
hardcore" do que o do Alive, onde actuou no passado Sábado. Daí a "shirts come off" passar de pedido a grito de guerra foi um instante e foi com centenas de t-shirts e derivados a esvoaçar no ar que Peaches abandonou o palco do Marés Vivas.
Alinhamento:
Intro
Mud
Talk to Me
Billionare
Take You On
Show Stopper
Serpentine
Shake Yer Dix
Tombstone
More
Boys Wanna Be Her
You Love It
Lose You
I Feel Cream
Mommy Complex
Kick It
Fuck the Pain Away
Encore:
Set it Off
Na tenda TMN Moche, a animação na restante noite esteve a cargo do
Gare e dos DJs
Cais 447.